Para início de conversa, sou negra, favelada e universitária. Hum! Será que doeu ao ler favelada? Mas, é o que eu sou, pertenço a uma Favela da Baixada Fluminense. Mais precisamente pertenço ao palco do maior evento voluntário de graffiti da América Latina o Meeting of favela, chamado carinhosamente de MOF por seus idealizadores, artistas e turistas.
Tomou outro susto ao imaginar que uma favela na BF possa receber alguns turistas? Sim, meus caros, não são somente as favelas da Zona Sul que têm este privilégio. Nós do outro lado da linha também produzimos cultura. Durante minhas andanças sempre escuto alguém que nem mora na BF mencionar que as Favelas são berços de marginais e que nelas não tem cultura. Escutei de uma educadora que veio de Porto Alegre para dar aula em Duque de Caxias que “para acabar com a marginalidade teria que acabar com as favelas”, a solução que a mesma “educadora” encontrou foi de “convidar os moradores a se retirarem, mas se eles se negassem jogaria uma bomba na favela para exterminar os marginais”.
“O povo que sobe a ladeira
Ajuda a fazer mutirão
Divide a sobra da feira
E reparte o pão.
Como é que essa gente tão boa
É vista como marginal
Eu acho que a sociedade
Tá enxergando mal”.
Arlindo Cruz
Este trecho da música “FAVELA” retrata bem o sentimento de quem mora em uma e escuta o tempo todo este tipo de absurdo que a tal “educadora” proferiu com violência. É por este tipo de declaração que afirmo que a sociedade enxerga mal. É claro que ninguém aqui quer ser demagogo e afirmar que a Favela é o melhor lugar do mundo para se morar e que não há problemas. Sim, há problemas e crimes, mas como existe também em Brasília e nem por isso uma bomba tenha que ser jogada lá. As Favelas são polos de resistência e criatividade, os favelados estão ocupando as universidades e fazendo valer o seu direito de serem cidadãos reconhecidos.
Porém, o que mais dói aos meus tímpanos é escutar de quem mora aqui que “na Favela não se tem nada”. Como não tem? Tira um dia para visitar a nossa galeria a céu aberto na Favela da Vila Operária que recebe todos os anos grafiteiros de vários cantos do mundo e turistas, gente que produz cultura. Dá uma passada no Cangulo e visita a Biblioteca Comunitária Solano Trindade, faz uma pesquisa e descobre de onde são os organizadores do encontro de Hip Hop chamado de Cypher na Rua que reúne uma vez por mês centenas de pessoas na Baixada Fluminense.
Essas ocupações tornam a Baixada um polo criativo e multicultural. Tudo bem eu acabei generalizando quando falei da Baixada como um todo em relação à cultura. Então voltamos para a indagação “Favela tem cultura ou a Favela é cultura?” Percebam que escrevo “Favela” com a inicial maiúscula para denotar a força que ela tem além do sentido etimológico. Eu acredito que a resposta seja sim para as duas questões e que uma puxa para a outra.
Para exemplificar vamos lembrar que o samba é um patrimônio imaterial e o funk reconhecido recentemente como manifestação cultural e que ambas foram formadas pela cultura negra, a capoeira não fica fora disso. Estas manifestações se dão principalmente nas Favelas. Opa! Então a Favela historicamente tem cultura. E se pararmos para pensar nas inúmeras pesquisas a respeito das Favelas e toda a descoberta sobre sua formação que contribui para a história do Brasil e que estas criações culturais que eu citei como tantas outras advêm de um negro favelado? Então a favela também é cultura. Nós ocupamos os espaços públicos com muita cultura sim. Talvez ainda demore um pouco (ou muito) para que ela Elas sejam reconhecidas e RESPEITADAS como temos que continuar com os movimentos #VEMPRABFVEM e #VEMPRAFAVELAVEM.
A mobilização faz parte da história.
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