O que o (im)possível fim do Sarau V pode representar pra cultura da Baixada?
A gente precisa dar uma refletida sobre o assunto
Pois é, o Sarau V acabou. Parou. Não vai rolar – pelo menos não por um bom tempo. Apertou o “pause”? Acho que todo mundo sabe que a Janaína Tavares é quem ficava à frente do V, certo? A gente precisa entender o que vem rolando pra poder falar sobre esse nó na garganta que é o hiato de edições do Sarau V.
Troquei muitas mensagens com a Jana no período em que ela estava tomando a decisão de parar o V. O que talvez vocês não saibam é que ela já vinha se questionando há um bom tempo a respeito. Dava pra perceber que o V estava assumindo uma cara nova, diretamente influenciado pelos novos tempos, pela energia enorme da galera criativa da cidade e cidades vizinhas. O público abraçou a causa e o V ganhou nome em menos de um ano de vida. Tava no jornal. Tava no Facebook. Tava na boca do povo. Era notícia.
Mas Janaína ainda não estava realizada.
Oras, quem conhece a poeta/produtora/sonhadora sabe: ela tem um sonho grande. Ela quer falar com o povão. Ela quer tocar o coração das novas gerações. O Sarau V é aquele cometa que passou pela cidade deixando um rastro de amor.
E é sobre este rastro de amor, sonho e realização que esse texto aqui se trata.
O brilho no olho
Eu acredito no brilho no olho. Você pode ter uma ideia fantástica, mas se não falar sobre ele com paixão, acredite, sua ideia não sairá do papel. Você já viu como a Jana fala do V? Se ele chegou à sua vigésima primeira edição é porque ela tinha esse brilho no olho. Foi isso que empolgou tanta gente a batalhar pela existência do Sarau. Eu mesmo cheguei a ajudar algumas vezes, seja bolando uma marca nova pro V ou articulando uma coisa ou outra pra ajudar a viabilizar alguma edição.
O Sarau V é aquele cometa que passou pela cidade deixando um rastro de amor
Quem frequentava o V não era diferente: estamos falando de um ambiente com pessoas de coração aberto. Cheguei a confessar pra alguns que as vezes que estive no V nem eram pela poesia, mas pela experiência da coisa toda – e, me desculpem os poetas, mas se tinha uma coisa legal no Sarau V eram as conversas com pessoas interessantes que circulavam a roda.
Poesia ali era pra respirar, não só pra ouvir.
Cada bate-papo proporcionado pelo V era como uma aula. Sem superprodução, feito só com a coragem e um grupo pequeno de pessoas, que foi mudando ao longo de dois anos, o Sarau contava com poucos recursos e muito brilho no olho. Era a prova viva de que com boa vontade a gente consegue sim fazer uma cidade mais legal de viver.
Por falar em “recursos”, o Sarau V iria se oxigenar muito depois de ganhar o edital do Favela Criativa. Porém, depois de um ano amargando os prejuízos comuns de realizar algo na cara e a coragem, o dinheiro não chegou e o projeto teve que se reinventar. A gente vai falar sobre oxigenação mais à frente, peraí. Antes a gente precisa falar de um ponto divisor de águas.
O lance da “ressignificação”
Detesto como essa palavra virou vírgula. “Ressignificar” é dar um novo significado, é mudar a forma como você encara uma coisa – cara, isso é grandioso, não é uma coisa banal. Uma praça é cheia de significados. Não acredito que uma intervenção artística possa ressignificar um lugar tão cheio de simbolismos como uma praça. Talvez até resignifique uma rua, que é feita pra carros – mas não uma praça, que é feita pra histórias. No entanto, defendo com unhas e dentes que as intervenções artísticas podem e devem ocupar os espaços públicos, principalmente os pouco ou mal utilizados, como a Praça dos Direitos Humanos. A praça tá lá, só esperando a gente usar. Ela significa liberdade, afeto, troca e várias outras palavras-chave cult bacaninhas.
Havia uma vontade enorme em itinerar o Sarau V, levando-o para cada vez mais pessoas. De repente, a Praça dos Direitos Humanos se tornou um point. Ela já havia recebido intervenções artísticas anteriormente, mas até então ninguém havia “marcado território” como a turma do Sarau V fez. Dialogando com os vizinhos, as dobradinhas com o MusicAção e com o também extinto Alma Versada, o V mostrou direitinho como se pede licença na rua pra fazer algo cativante.
No entanto, a vontade de itinerar só foi crescendo. Ao invés de reinvestir na marca e no território, o direcionamento do V era totalmente contrário, querendo ampliar seu discurso pra outros lugares. Agora sim a gente fala de oxigenação.
A necessidade de “oxigenar”
A última edição do Sarau V aconteceu no Valverde. Mais uma vez, pedindo licença, a turma chegou no lugar ao lado de quem chegou primeiro. A vontade de há muito tempo era ampliar o público. Nunca foi desejo da produção em transformar o Sarau V num ponto de encontro de intelectuais, como se tornou com o tempo. A vontade era de levar poesia pra todo mundo. Essa edição no Valverde foi a grande oportunidade de fazer isso.
O pré-evento contou com o apoio de muita gente. Até eu entrei na movimentação e fiz foto apoiando. Muita gente fez. O tema era “quem são os Silvas?”. Simbólico. O Sarau V, que tanto queria encontrar os Silvas, encerrou suas atividades homenageando-os. E vários Silvas de outros sobrenomes fizeram sua parte pra espalhar isso.
A sensação é que essa itinerância era tudo que Janaína e sua turma queriam. Havia ainda mais brilho no olho ao falar de poesia no interior da cidade. Ironicamente, a última vez que a encontrei foi no ano passado, na Praça dos Direitos Humanos, numa intervenção artística. Mais ironicamente ainda, literalmente fugimos da atividade pra bater papo. Rendeu até foto no Instagram. Na ocasião eu pude confirmar: O Sarau V, como nós o conhecemos, havia acabado.
Nem tudo, ou melhor, nada está perdido
Palavras da própria produção do V no post que fizeram de despedida no Facebook: “a gente, que é mãe, sabe quando chega a hora de cuidar de outras coisas e deixar o filho crescer“. É exatamente isso que está acontecendo, cabendo a cada um que conheceu o Sarau V levar um pouco da sua palavra, fazendo o V crescer.
Aquele projeto lindo agora está na responsabilidade de cada um de nós, individualmente, em usarmos este aprendizado para replicar a mensagem. E que mensagem é essa, senão a do diálogo, do papo aberto, do respeito à fala do colega? Trata-se de garantir o direito do outro à fala, mesmo que contra a sua vontade, mas que esse direito seja garantido. No V era assim.
Ano passado estive em Brasília com gente do país inteiro. Num dado momento, foi organizado um karaokê muito sem graça e ninguém deu a mínima para o equipamento. Olhei em volta. Pensei. Refleti. Peguei o microfone pra cantar um Thiaguinho e lembrei do V, do Ferrão improvisando de apresentador, da Janaína chamando as pessoas pro microfone aberto… Aquele inconsciente coletivo tomou conta e quando dei por mim, o microfone do karaokê virou uma extensão daquela correria iguaçuana. E foi lindo. Teve gente falando poesia, gente cantando música chata, gente mandando o recado, teve de tudo. Muitos nunca foram num sarau antes. Graças ao Sarau V, veja só, teve gente em outro canto do país conhecendo esse movimento.
Sinceramente, o Sarau V, no fim das contas, não chegou ao fim. Ele virou aquele aplicativo instalado no sistema, saca? Ele virou um monte de pedacinhos, ele está presente cada vez que um de nós, que estivemos no V, pegamos num microfone pra deixar uma mensagem.
A melhor parte de comparar o Sarau V com um cometa é lembrar que, um dia, ele volta e passa de novo.
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