Gente da Baixada

Wesley Brasil

Editor do Site da Baixada, é um cronista da metrópole e garimpeiro de histórias.

Leia todos os textos

É hora de pensar a Baixada Fluminense para o Brasil

Por

Se tem uma coisa que minha carreira no mercado publicitário carioca ensinou é que “não existe propaganda boa para produto ruim”. Essa máxima guiou meus princípios profissionais – e guia até hoje. Vi muita ideia cheia de grana no bolso morrer porque era ruim. Esse paralelo mercadológico ilustra bem a nossa situação por aqui nessa tal Baixada Fluminense.

Calma.

Lá nos anos 80, o produto Baixada Fluminense foi parar no noticiário mundial pela sua violência. Os tais grupos de extermínio que continuam trabalhando até hoje. Deixou uma mancha negra pintada por uma mão branca que definiu os rumos midiáticos desse lugar mal dito. Com espaço mesmo. Venderam a ideia de ser “maldito” mas a gente sabe que não é bem assim.

Depois de apanhar um bocado nos jornais, a Baixada vem fazendo o dever de casa. Grana, empregos e cultura. Chegou asfalto, alguma coisa de saneamento e até quadras de grama sintético – públicas! Quem diria, hein? Mas ainda não é hora de comemorar.

A gente não pode deixar o desenvolvimento virar uma bolha e assisti-la estourar.

Participei das reuniões no ano passado que criaram o RECULT, um espaço de discussão e representatividade para a cultura iguaçuana. Minha fala causou incômodo: falei de números. Oras, venho de um mundo baseado em métricas. Em resultado. Uma empresa não vai patrocinar algo só porque é importante. Dinheiro não se trata de importância, mas de dinheiro. Dinheiro não é amor, não é uma causa. Dinheiro é apenas dinheiro. E pra trazer dinheiro, não tem fórmula mágica. Não tem outro jeito: números.

Com base nisso, a Baixada tem disputado cada vez mais espaço com a capital. Caxias sozinha não tem força. Nem Nova Iguaçu. São João de Meriti, então, não passa de um formigueiro. O pulo do gato é cada um se ver como bairro, como parte de uma grande cidade que não se divide em zonas, mas em prefeituras.

E os números? Se juntar todo mundo, há pressão suficiente? Será que o nosso produto é bom?

Se nos anos 80 paramos no noticiário mundial por causa da violência, hoje viramos vítimas das UPPs cariocas, que trouxeram de volta o medo pra cá.

Estamos tentando fazer cultura, construir políticas públicas de economia criativa, um bocado de esforço pra uma população que já não sai tanto de casa. Um povo que tem medo. Que convive com a tirania da violência. Como ele vai consumir nosso produto, mesmo que a gente venda bem? Como teremos os números, se a calculadora está quebrada?

Pra piorar a situação dos números, do apoio popular, da abrangência, do retorno de marca…: não é difícil ouvir um frequentador de atividades culturais reclamar que sempre vê as mesmas pessoas. Pra quê um empresário vai apoiar algo de nicho tão pequeno?

Prefiro pensar a Baixada Fluminense para o Brasil. Para o mundo.

Se não queremos criar uma bolha, precisamos pensar além. Precisamos criar coisas de gosto popular: e o povo gosta de violino sim, gosta de teatro sim, gosta de filme sim. A gente precisa empacotar melhor esse produto pra vender. Não dá pra convencer que um Cineclube é popular, se suas sessões têm 10 ou 15 pessoas. Não dá pra dizer que um site é legal se ninguém acessa. Não dá pra dizer que um restaurante é bom se não tem fila. Bons restaurantes atraem gente de longe. E o mesmo se aplica a tudo que é bem vendido e bem entregue. Fui muito mais vezes nas praias da zona sul do que as da Baixada. A turma até esquece que existe Magé e Itaguaí, além dos muitos parques naturais a 20 ou 30 minutos de nossas casas aqui mesmo na Baixada. E por que você, leitor, conhece melhor o Pão de Açúcar que o Morro do Cruzeiro? O assunto é longo e não cabe aqui. Pense.

Se pensarmos na Baixada para o Brasil, vamos compreender que nossas ações precisam reverberar e alcançar mais gente.

A vizinhança não joga pra perder: costa verde é um absurdo de lindo, região serrana é um charme danado e o Rio, caramba, o Rio de Janeiro é o Rio de Janeiro! Os nossos vizinhos fazem seu dever de casa. E nós?

“Uma nação dentro de uma nação”, como disse o Ministro da Cultura em sua visita essa semana. Gosto de pensar assim. Criar coisas que façam as pessoas se deslocarem do Rio pra cá. Foi essa minha motivação ao criar o Beco Festival. Por isso assino a direção de arte do EncontrArte ao invés de continuar com em grandes agências cariocas. Foi esse sonho que me fez reerguer o Site da Baixada. E tenho certeza que essa visão é compartilhada pelas pessoas que têm trabalhado pra fazer o Rio e o Brasil olhar e vir pra cá.

Há uma geração de criativos dispostos a fazer a Baixada assumir seu merecido protagonismo através de números capazes de incomodar muita gente que repete o discurso de pobreza e abandono daqui.

Os governos municipais já lucraram muito com essa imagem maldita da Baixada. Qualquer migalha garante uma eleição. Mas essa geração criativa não veio pra migalha não.

Se não encontrarmos maneiras de superar o problema da nova violência, teremos sérias dificuldades pra gerar números. A situação nos deixa bem próximos dos guetos de Nova York nos anos 80, dadas as devidas proporções, mas somos uma região pobre separados por uma Avenida Brasil de distância da região rica, enquanto a dinâmica de Manhattan é outra.

Se pensarmos a Baixada para o Brasil, vamos compreender que o que fizermos aqui pode refletir na nação como um modelo viável de superação em muitos sentidos. Nossa responsabilidade, enquanto construtores de uma nova percepção do território, é atentar-se à situação de maneira ampla – não somente da cultura, mas da segurança pública, dos direitos humanos, do emprego, do empreendedorismo e de tantas outras pautas que continuam urgentes por aqui e são básicas para o exercício pleno da cidadania.

Pra mim, a Baixada tem que ser o destino, não o caminho.

No seu email

Os principais assuntos da Baixada Fluminense gratuitamente no seu email. Sem spam.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Site da Baixada