Gente da Baixada

Wesley Brasil

Editor do Site da Baixada, é um cronista da metrópole e garimpeiro de histórias.

Leia todos os textos

Ainda falta um ecossistema para a economia criativa da Baixada pegar impulso

A falta de conexões de rede e incentivos fiscais têm sufocado negócios criativos na região

Por

#economia criativa

Há alguns anos repito esse discurso e não me canso: falta um ecossistema para os negócios de economia criativa da Baixada Fluminense. Como assim? Um ecossistema é, nas palavras da wikipedia, “o conjunto formado por todas as comunidades bióticas que vivem e interagem em determinada região”.

Quando dirigia minha agência de publicidade, a dificuldade no recrutamento era maior que a prospecção de clientes. Tínhamos uma comunicação inteiramente voltada para mostrar o estilo de vida do escritório para convencer as pessoas de escolher-nos pra trabalhar ao invés de ir pro Rio. A capital carioca oferece salários muito melhores, além de acesso a um mercado de alta performance tanto criativa quanto econômica.

A disputa que a Baixada tem com o Rio se reflete nessa rede criativa ainda desconectada – estou me referindo a iniciativas que ainda não se conectam, não trocam saberes e muito menos trabalhos ou contatos. Profissionais de economia criativa talentosíssimos acabam sequer se interessando pelo mercado local e usam a Baixada como cidade-dormitório. Alguns dos meus colegas donos de escritórios, especialmente de publicidade, passam perrengue pra encontrar designers.

“Economia criativa” não é produção de eventos que não dão prejuízo. Trata-se de atividades que dependem da criatividade de alguém e isso pode ser explorado de forma econômica. Música, design, moda, audiovisual, fotografia e até linguagem de programação estão nesse bolo.

As barreiras são enormes para tocar um negócio criativo na Baixada. Desde a pouca oferta de boas conexões com a internet, passando pelos problemas para liberação de espaços públicos para realização de atividades até, principalmente eu diria, a dificuldade e o custo de abertura de empresa. Se o seu negócio for, por exemplo, um escritório de branding, você está ferrado. Seu faturamento será superior ao MEI (Microempreendedor Individual), apesar de lucrar até menos que um freelancer. Se o seu contador não for ninja, você não entrará no simples e a tributação criará uma belíssima bola de neve pra você, caso aquele grande projeto seja cancelado no meio do caminho.

Em contraste com a nossa situação na Baixada, há algum tempo atrás eu soube da iniciativa “Made in NY“. Trata-se de uma rede de negócios de tecnologia em Nova York. Os caras têm expandido esse projeto para oferecer empregos e informações sobre tocar um negócio de tecnologia na cidade. Na verdade, estão indo além disso e abraçando outros negócios diretamente ligados a economia criativa. Essa iniciativa fomenta essa troca entre as empresas, facilita o acesso de profissionais a empregos na região. Entre os associados está, por exemplo, o Livestream, um serviço de alcance global para transmissão ao vivo de eventos. A lista passa por agências digitais, portais de serviços de nicho, negócios de tecnologia e muitos outros.

Ok, vamos à prática: talvez uma pequena empresa precise fazer uma reforma. Ela chama um arquiteto. Esse cara precisa da ajuda de um designer de interiores. Durante a reforma, o pequeno empresário se lembra que precisa divulgar o relançamento da sua loja. Precisará de fotos novas e de um projeto de design para comunicar isso. A loja parece que ficará linda e vai gerar novos empregos, daí o empresário percebe que precisa de alguém pra transformar isso em reportagem no jornal. O designer convence o cara de ter um site, então ele chama um programador pra ajudar o designer a tirar a ideia do papel.

É preciso pensar num ecossistema onde hajam condições de competitividade com o restante do país. Os negócios criativos da Baixada Fluminense não podem morrer porque não conseguem respirar.

Uma pequena reforma de loja pode garantir trabalho para uns seis profissionais de economia criativa. Agora pense no cenário macro: a Baixada tem 30.139 estabelecimentos comerciais, de acordo com um levantamento do Sebrae. Desse total, só de grandes empresas estamos falando de 1.009. Desconfio que seja mercado suficiente pra todo mundo, não é mesmo? Mas essas empresas têm recorrido aos serviços cariocas – não porque acham melhor o que vem de lá, mas porque desconhecem as prestadoras de serviço daqui.

Estes profissionais de economia criativa são a base para a realização de atividades culturais. Estamos falando de muitos produtores de eventos, fotógrafos, músicos, atores, designers… Gente que gosta de se mobilizar para realizar cineclubes, saraus, shows em praça pública e outras manifestações artísticas.

Precisamos estimular a troca – de trabalhos, de contatos, de olhares…

Antes de pressionar por incentivos fiscais ou ajuda do Estado na criação de qualquer coisa, precisamos trocar mais. Mesmo com o mundo em crise, ainda há bastante trabalho por aí. Os cariocas já têm mercado suficiente.

Em 2013 me convidaram pra discutir sobre a criação de um coworking voltado especialmente pro mercado de publicidade da Baixada. Na época achei que a ideia não daria muito certo, que os colegas de mercado ainda se viam como concorrentes ao invés de parceiros potenciais. Dois anos se passaram e posso contar nos dedos as vezes que queimei a língua – me arrisco a dizer que o número é perto do zero.

No entanto, tem um grupo de amigos em Caxias dispostos a criar um coworking: a Gomeia. Eles reuniram criativos de segmentos variados para criar um ambiente de troca entre si, que pode gerar riquezas. Considero iniciativas como essa fundamentais para termos um ecossistema. É um passo. Eles estão com um financiamento coletivo no Benfeitoria para realizar uma obra no galpão deles – benfeitoria.com/gomeia.

O segredo para a criação de ambientes de troca é justamente esse: a variedade. Um coworking de designers pode ser complicado de andar, mas um coworking que inclui moda, games, branding, publicidade, socialmedia, assessoria de imprensa e outros, pode ser o segredo para o sucesso para tais iniciativas.

Que a Baixada Fluminense está em processo de mudança, todo mundo sabe. E a Economia Criativa pode ser o epicentro de toda essa revolução que vivemos aqui.

No seu email

Os principais assuntos da Baixada Fluminense gratuitamente no seu email. Sem spam.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Site da Baixada