Sobre o desafio de despertar amor à Baixada Fluminense
Nosso vizinho tira de letra esse desafio, enquanto nós ainda não aprendemos a amar a Baixada Fluminense
Pode parecer muito atrevimento dizer que o Site da Baixada quer “despertar o amor à Baixada Fluminense”. E é sim. Por isso evito usar argumentos desse tipo, já que a Baixada já teve muitos movimentos de amor à região. Para citar apenas os que eu ouvi falar: “A Baixada é linda”, criado na virada do século, que falava das belezas naturais daqui; o “Miss Baixada” que elegeu uma menina negra logo na primeira edição e falava da beleza de maneira geral da Baixada; o Dia da Baixada, que virou uma lei estadual nunca aplicada.
Diante de tantos movimentos de amor, posso afirmar com certeza: estamos longe de estar criando um movimento original. Na verdade, de original não tem quase nada: minha base no design levou a conhecer o trabalho de Milton Glaser, criador da campanha “I ♥ NY”. Você já viu essa marca por aí. Achei uma boa apropriar-se da composição gráfica. O grande lance aqui é despertar interesse do morador da Baixada.
O desafio de ‘Eu ♥ Baixada’ é despertar no morador da Baixada Fluminense o amor reprimido que ele tem pelo lugar onde vive.
O problema que a gente enfrenta quando fala da Baixada é sempre o mesmo: pobreza, violência, descaso, enchentes, chacinas… Já estamos em 2015 e o povo ainda acha que o Tenório Cavalcanti anda pelas ruas com a Lurdinha na mão. Pelamor…
Como se a imagem que a mídia tradicional construiu ao longo de décadas já não fosse desafio suficiente, ainda temos o vizinho Rio de Janeiro. Estamos do lado de uma das cidades mais conhecidas, amadas, celebradas, e, eu admito, bonitas do mundo. Vocês estão cansados de ouvir que o Rio é a cidade maravilhosa… Promovem o maior carnaval do planeta, tem praias mundialmente conhecidas, tem a princesinha do mar, e ainda por cima está transformando suas favelas em ponto de turismo. Concorrência difícil, hein.
O carioca sabe se valer do lugar que vive. É bonito dizer que ama o Rio. É maneiro apoiar alguma causa de amor ao RJ, mas que fique claro que é a capital: não o estado.
Ainda estamos descobrindo e aprendendo a comunicar as belezas naturais da Baixada. O vulcão de Nova Iguaçu não é tão hollywoodiano quanto a Floresta da Tijuca. O Museu Ciência e Vida não é tão badalado quanto o CCBB. A feira de São João tá longe de ser a Uruguaiana. O Alto Iguaçu não é tão cult bacaninha quanto a Lapa.
Do lado de lá da Linha Vermelha, a turma do Rio eu Amo Eu Cuido tira uma onda: “O cuidado com o Rio deve ser proporcional à sua beleza”. Mas é claro. Eles têm plena consciência do quão bonito é o Rio e quantas pessoas do mundo inteiro desembarcam diariamente na cidade. O Rio tem consciência da sua beleza.
O grande lance pra gente virar o jogo é compreender as razões para amar a Baixada Fluminense. Não adianta a gente se comparar com a cidade maravilhosa. Ao longo desses 9 anos no ar, aprendi que a verdadeira razão de orgulho pra gente não está em belezas naturais, mas nas pessoas da Baixada Fluminense. Esse lugar proporciona experiências de vida muito mais abrangentes do que a glamourosa cenografia do Rio de Janeiro.
“Não é xenofobia, é só orgulho da minha origem (…) Aqui a ralé é chique, na BXD sou local”
– Marcão Baixada
Se você, leitor, mora na Baixada Fluminense, sabe do que estou falando. Você com certeza conhece alguma história incrível de um vizinho seu que às vezes fica sentado no portão de casa. Você teve que explorar um grande território e suas experiências de vida não se limitam a uma área protegida por um Túnel Rebouças. Você teve que aprender a andar de bicicleta e andar no trânsito pra poder ir pra escola, ir na casa dos amigos, ou simplesmente dar um rolê na sua bike pela vizinhança. Todos os meus amigos têm histórias de derrotas hilárias.
A Baixada Fluminense merece nosso amor porque ela nos tornou o que somos. Do “Baixada é cruel” até os tempos de hoje, não consigo mais enxergar minha jurisdição sem compreender que sou dono desse lugar. É quase um papo de Boyz n the hood, só que armado com ideias ao invés de pistolas.
Se fosse pra comparar o carioca do Rio com o carioca da Baixada, eu diria que o do Rio tem um sentimento de pertencimento.
Nós temos um sentimento de propriedade.
P.S.: O Site da Baixada está com um financiamento coletivo no Benfeitoria. A gente quer se transformar em um negócio social pra poder contribuir de forma efetiva na transformação da Baixada Fluminense através do amor. Se você quer fazer a sua parte, basta acessar e contribuir em benfeitoria.com/sitedabaixada.
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