Gente da Baixada

Baixada, cruel e potente

As esquinas são morada da mudança

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Pensar e lembrar a Baixada – pros chegados “BF” ou simplesmente “BXD” – é ter uma visão dupla de imaginário, uma guiada pelos afetos e outra guiada pela mídia. Nossas memórias teimam em quase sempre cair de prima no segundo imaginário e depois transitar no primeiro. É, talvez seja assim com todos nós que temos a intenção de gerar novas narrativas sobre nossos territórios, de acabar com generalizações infundadas que mais afastam do que unem sujeitos de outros espaços, saberes, entendimentos e ambientes.

De 30% a 40% dos Jovens assassinados anualmente no Estado provêm da BXD. São cerca de 145 mil Jovens da Baixada Fluminense que não trabalham e nem estudam, mas que certamente estão envolvidos com algum fazer informal e não entram nas estatísticas oficiais.

O estigma de que a Baixada Fluminense, região que abarca 13 municípios do Estado do Rio, é somente pobre, violenta, desorganizada e longínqua engana fácil quem não tem um instinto mais curioso e desbravador, preferindo ficar na comodidade das reproduções da mídia – até mesmo quando se integra movimentos progressistas. Cabe a nós, territoriais de campo e origem, desconstruirmos essa lógica e pautar não somente as realizações, mas as existências de nosso território. É verdade que a cada dia casos de violência ocorrem, também é verdade a falta de uma estratégia cidadã e de Direitos a partir da Segurança Pública, mas existem diversos agentes interessados diretamente na mudança dessas chaves, existem ações aos montes em cada município da região, há articulações a partir da Sociedade Civil para que a negatividade dos territórios seja reduzida, sobretudo o bonde cultural tem apostado suas fichas nessa transformação de mente, metanóia.

Podemos citar desde ações mais institucionais como Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu e Território Baixada, ações independentes veteranas como Cinema de Guerrilha e Centro Cultural Donana, a ações novas como a roda da MURB – Monstro Urbano e Sarau RUA, em sua esmagadora maioria lideradas, organizadas e conceituadas por jovens desses próprios territórios, sem contar com os inúmeros indivíduos que não gerem uma ação mas contribuem como produtores de muitas dessas ações, compartilhando metodologias e gerando uma conexão em rede-comunidade muito consistente que atinge inclusive a capital, principalmente pela necessidade ainda existente da maioria dos baixadenses de terem que se deslocar para a capital a fim de fazerem seus cursos nas universidades.

Temos o poder de escolha de lembrar apenas que cerca de 30% a 40% dos Jovens do Estado que são assassinados anualmente provêm da BXD e na maioria dos casos são executados pelo braço armado do Estado, que atende sob o nome de PMERJ, ou acrescentar o recente lançamento do aplicativo Cultura BF que organiza por georeferenciamento cerca de 300 iniciativas da BXD; lembrar que estas ações têm importância primordial na disputa desse imaginário vivaz sobre a BF, e que em algum grau, mesmo pontual, contribuem para um impacto positivo de redução da violência na região. Por enquanto, somente o poder público estadual e os respectivos municipais tem capacidade de uma realização em escala com capilaridade para impactar toda a Baixada, mas não detêm a articulação em rede que estes grupos construíram no decorrer das últimas quase 3 décadas e parecem não compactuar com esse interesse, que vem sendo trabalhado tanto pela Academia quanto por líderes comunitários e sócioculturais.

Como transformar esse imaginário que permanece em nós e hegemoniza mentes que não circulam nosso espaço?

Como criar um canal de diálogo e DELIBERAÇÃO com os respectivos órgãos competentes? Eis o grande desafio que os nós da grande rede-comunidade chamada BF vem se debruçando, eis um possível caminho que pode proporcionar uma nova forma de Estado, que não seja só rede e nem só comunidade, mas os dois remixados numa amálgama concisa a ponto de operar aquilo que o Estado nunca conseguiu (ou nunca teve o interesse). São cerca de 145 mil Jovens da Baixada Fluminense que não trabalham e nem estudam, mas que certamente estão envolvidos com algum fazer informal, que apesar de criminalizado e tratado como ilegal, também gera renda e faz o dinheiro circular, sendo muitas vezes o grande potencializador da maioria das realizações não-governamentais e do envolvimento juvenil com pautas que vão contra a corrente de alarmância e periculosidade do nosso lugar.

Nada está dado, por esse motivo, a disputa pelo imaginário desejável deve estar cada vez mais enraizada no nosso cotidiano, até em pequenas coisas, como entender nossos municípios como tal e não como meros apêndices da capital. A partir daí compreender a (des)funcionalidade da mobilidade, do saneamento e infra-estrutura urbanas e o que origina a série de problemas, entraves e in_visibilidades que são presentes, formar um plano estratégico, político e pedagógico de iniciativa popular que olhe para cada cidade, para cada bairro, para cada casa e por fim, para toda a BXD. Para isso, aumentar nosso conhecimento jurídico e legislativo é uma trilha que pode abrir muitas possibilidades, que fortalece e pode mudar o comportamento altivo dos poderes estatais regionais.

“As redes sociais devem ser extremamente utilizadas como propulsor do trabalho analógico e das gambiarras territoriais que não podem, e nem devem, ser gourmetizadas por “ONGs” de empreendedorismo social, institutos e fundações de empresas de capital privado”

É o momento de não esconder nossa origem, mas partindo dela, gerar mais mudanças, esforços para que aqueles que se descolaram desta luta, possam se reintegrar e auxiliar na preparação da próxima geração que dará continuidade ao que estamos legalizando – legado e libertando da proibição e criminalização. As redes sociais não têm papéis, porque são ferramentas, mas como instrumentos, devem ser extremamente utilizadas como propulsor do trabalho analógico e das gambiarras territoriais que não podem, e nem devem, ser gourmetizadas por “ONGs” de empreendedorismo social, institutos e fundações de empresas de capital privado, sobretudo por serem o fundamento do que realmente mobiliza desejos, afetos, existências, presenças, memórias, metas e mudanças.

Escolher ganhar umas horas dando um pouco mais de forma e organização a todo esse conteúdo de transformação que produzimos no dia-a-dia e perder umas horas de diversão pode ser o que falta, não tenho respostas, apenas reflexões, precisamos partir de algum lugar e esse me parece visceral e cru, mas transformador. Gosto de pensar que as esquinas não são moradas do futuro, mas do presente, da vontade de mudar agora, sem ser imediatista, mas estratégico. Nelas traçamos muitos objetivos que foram alcançados, outros nem tanto, mas aposto que cabe a nós dar mais atenção pra esse lugar que atravessa a Cultura de Periferia em todo o país.

Potência onde ninguém vê potência, é nóiz no corre.

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