O carnaval e a desculpa esfarrapada da crise financeira
Quando a preguiça de administrar fala mais alto
A fórmula mágica de “direcionar as verbas para as prioridades do município” está dando certo. Nas redes sociais, chovem elogios aos governos que não vão aplicar um real a mais sequer em saúde, educação e infraestrutura.
Você acha mesmo que a economia de um ou dois milhões vai resolver os problemas profundos de planejamento inexistente nas cidades?
Oras, não pulo carnaval. Mal saio de casa durante a folia. O ponto aqui não é a festa de carnaval, mas a maneira como as cidades são administradas. É vergonhoso imaginar que somos um povo que aceita tantas histórias mal contadas.
2016 vai passar longe da Sapucalight iguaçuana e do Rodeio Meriti. Será um ano onde, ao que tudo indica, não terá aquele show do Wesley Safadão que todo mundo queria ver na Festa do Aipim. A coisa tá tão feia que o único Wesley que vai ter por aqui é o Brasil, mas até ele tem dado menos as caras por aí.
É a crise.
O grande lance é que os prefeitos da Baixada Fluminense não querem criar gestões de código aberto, verdadeiramente democráticas, montando secretarias com equipes técnicas.
Nós estamos pagando, literalmente, o preço imposto pelos partidos que negociam cargos.
Por falar em impostos, eles servem para garantir uma série de serviços – o que inclui sim a diversão pro povão. Um governo que segue um planejamento mínimo, com um cronograma minimamente organizado, com algum acompanhamento da sociedade civil, deveria ser capaz de tirar seus projetos do papel. E cadê o tal planejamento?
Mas enxergo um problema ainda mais profundo: a descontinuidade, a falta de plano a longo prazo.
Na ânsia de realizar projetos que garantam votos, os governos jogam pro alto as ideias que não lhe convêm. Ignoram a chance de dar andamento nos projetos de gestões anteriores. E quem paga por isso?
Esse papo aí de prioridades é conversa pra boi dormir. Tem muita festa de rua se bancando apenas com vendas de bar e pequenos apoios de comércio local. Com um pouco de criatividade, dá pra fazer um agito bem organizado e que dá até um lucrozinho no final. Conheço um monte de gente que faz isso.
Economia criativa, meu bem. Ela ainda vai tirar a gente da lama.
Parece que algumas cidades estão oferecendo apoio aos blocos de carnaval. Mas conhecendo bem a Baixada, tá na cara que estamos falando de as prefeituras estarem dizendo “nós não vamos nos meter, mas vamos dizer que estamos apoiando. Toma aqui esse tapinha nas costas”. Parece um jeito criativo de resolver as coisas, mas chega a dar uma dor na espinha ao imaginar o processo usado para aprovar tais apoios. “Postura é lixo”, né, como diz o poeta.
Cada vez que ouço “cidade tal não realizará a festa tal”, dá vontade de pagar um curso de administração pros prefeitos. Mas nem eles estão pagando pra um curso desses.
Deve ser a crise.
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